CRISE NA GRÉCIA

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O termo “Grexit”, alcunha dada à possível saída da Grécia da zona do euro, não é novo. Ele já vem sendo usado há alguns anos, mas ressurgiu com força nos últimos dias. A impressão é que desde a crise de 2008 e o início do resgate financeiro o país nunca esteve tão perto de deixar o euro.

A confusão começou na madrugada de sábado (ainda era noite de sexta-feira aqui no Brasil). O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, fez um pronunciamento na televisão para convocar um referendo que deixaria nas mãos da população a decisão de aceitar ou não a continuidade das medidas de austeridade fiscal. Trocando em miúdos: os cidadãos terão que dizer “sim” ou “não” para as exigências dos credores (instituições que emprestam dinheiro para a Grécia, como o BCE e o FMI), que incluem diminuir gastos do governo e aumentar impostos.

Antes de Tsipras aparecer na televisão, as negociações entre os representantes das instituições credoras e da Grécia para liberar um empréstimo de 7,2 bilhões de euros continuavam, ainda que sob tensão. Com o anúncio surpresa, elas foram encerradas. Nesta terça-feira (30/06), vence uma dívida de 1,55 bilhão de euros do país com o FMI e acaba o atual programa de ajuda da zona do euro para Atenas. O problema é que a Grécia não tem dinheiro para pagar o FMI. As conversas para liberar uma nova parcela de empréstimo, que se arrastavam há meses, dariam um alívio para as contas da Grécia – mas o governo do primeiro-ministro Alexis Tsipras não quer aceitar as exigências, consideradas demasiadamente duras. Fique por dentro e entenda todo o drama grego:

Por que as negociações sobre o novo empréstimo não haviam avançado até agora?
Tsipras e seu partido, o Syriza, foram eleitos no início deste ano justamente por causa de sua posição contrária à austeridade fiscal. Desde 2010, quando a Grécia acertou o primeiro empréstimo bilionário para sair da crise, o governo teve que aceitar várias reformas para reduzir gastos e arrecadar mais. Porém, cinco anos depois, a situação econômica do país não melhorou. Uma em cada quatro pessoas no país está desempregada. Entre os jovens com menos de 25 anos, metade não trabalha. O PIB não acompanha o ritmo de crescimento registrado nos demais países da zona do euro. Nos últimos seis anos, desde o início da crise, o indicador econômico caiu 25%. Nos últimos meses, Tsipras e seu ministro das Finanças, Yannis Varoufakis, negociavam com os credores para tentar afrouxar um pouco as políticas de austeridade. As propostas de cada um dos lados foram e voltaram várias vezes, sem conclusão.

Por que a convocação do referendo atrapalhou o processo?
O referendo foi convocado para o dia 5 de julho, domingo, uma data depois do vencimento da dívida com o FMI e do fim do atual programa de resgate.  O problema é que eles não aceitaram adiar essa data. A proposta de fazer um referendo é democrática, mas sua execução foi um tanto atrapalhada. Na prática, há a possibilidade de que os gregos compareçam às urnas no domingo para votar uma proposta que talvez já nem esteja mais sobre a mesa.

E o que acontece agora?
Apesar de não ser agradável, deixar de pagar o FMI não é considerado calote para muitas agências de classificação de risco, que voltam suas atenções para as dívidas com o setor privado. A própria instituição dá um certo tempo aos devedores antes de publicar um aviso oficial de calote.

Como fica o sistema financeiro?
Uma das maiores dúvidas é se o sistema financeiro grego será capaz de resistir, caso o país não honre suas dívidas com os credores internacionais. Se o fracasso das negociações se confirmarem, a única saída para a Grécia provavelmente será a saída da zona do euro. Ao abandonar o euro, o país poderia voltar a imprimir sua antiga moeda, o dracma. O quanto ela valeria, no entanto, é um mistério.

O que o Banco Central Europeu está fazendo para lidar com a crise?
No domingo, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu manter os empréstimos de emergência para as entidades financeiras da Grécia e destacou que observa de perto a situação do país. O conselho do BCE, no entanto, anunciou que não aumentaria o volume de recursos disponíveis às entidades gregas por meio do programa de fornecimento urgente de liquidez, de cerca de 90 bilhões de euros. A decisão de não elevar o montante já é um indício de cautela por parte da autoridade monetária no momento em que as chances de um calote aumentam.

Quais medidas o governo grego tomou?
Para evitar uma sangria nas contas bancárias, o governo grego decretou o fechamento dos bancos durante a semana toda e impos um limite de saques no caixa eletrônico de 60 euros por dia. A medida tem como objetivo evitar que os cidadãos, com medo de que a crise se agrave ainda mais, retirem todo seu dinheiro das instituições financeiras – o que poderia levar a uma quebradeira dos bancos gregos. A bolsa de valores de Atenas também permanecerá fechada esta semana.

O que deve acontecer agora?
Os próximos dias serão intensos. A saída da Grécia da zona do euro jogaria o futuro da região no escuro. Ninguém sabe exatamente quais podem ser as consequências – para os gregos e para o resto da região. Além disso, colocaria em xeque um projeto de Europa que está em construção há décadas e pode levar a um efeito dominó: quem garante que outras economias fragilizadas como Portugal e Itália não seriam os próximos a pedir para sair?

Como o governo se posiciona em relação ao referendo?
Tsipras é a favor do “não”, caso a proposta atual dos credores não seja flexibilizada. Mas o efeito colateral de uma rejeição à austeridade implicaria, possivelmente, em um adeus ao euro. No entanto, pesquisas mostram que, apesar dos anos de crise, os gregos não querem sair do grupo. A escolha que eles terão pela frente não será fácil

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